Radioiodoterapia no Câncer de Tireoide: Para que Serve, Como é Feita e o que a Paciente Precisa Saber

Atualizado em: 9 de março de 2026.
Temo de leitura: 5 min.

Depois da cirurgia do câncer de tireoide, muitas pacientes recebem a indicação de um tratamento complementar chamado radioiodoterapia (ou terapia com iodo radioativo).

O nome assusta um pouco, mas entender para que ela serve, como funciona e o que esperar do procedimento ajuda a reduzir o medo e a atravessar essa fase com mais tranquilidade.

É muito importante reforçar: a radioiodoterapia não é necessária para todas as pacientes com câncer de tireoide. A indicação deve ser feita caso a caso, de forma individualizada, de acordo com o tipo de tumor, o estágio da doença e os fatores de risco de cada pessoa.

O que é a radioiodoterapia?

A radioiodoterapia é um tratamento que utiliza iodo radioativo (I-131), administrado em cápsula ou líquido, para destruir células da tireoide que possam ter sobrado após a cirurgia – inclusive possíveis células cancerígenas microscópicas, que não aparecem em exames.

Ela é considerada principalmente em alguns casos de:

  • Carcinoma papilífero
  • Carcinoma folicular
  • Mesmo nesses tipos de tumor, nem todas as pacientes irão precisar de radioiodoterapia. A decisão é tomada pelo médico, com base em critérios bem definidos.

Para que serve a radioiodoterapia?

Os objetivos principais são:

  • “Limpar” restos de tecido tireoidiano deixados após a tireoidectomia total
  • Tratar micrometástases (pequenos focos de células tumorais) que não são vistas em exames de imagem
  • Facilitar o seguimento com dosagem de tireoglobulina, que passa a ser um marcador mais sensível após a destruição do tecido tireoidiano remanescente

Em alguns casos, a radioiodoterapia ajuda a reduzir o risco de recidiva da doença.
Mas em tumores de baixo risco, pequenos e bem localizados, muitas vezes a cirurgia isolada é suficiente, sem necessidade de iodo radioativo.

Como o iodo radioativo age no organismo?

A tireoide é uma glândula que naturalmente capta iodo para produzir hormônios. Na radioiodoterapia, esse mecanismo é usado a favor do tratamento:

  • A paciente ingere o iodo radioativo
  • As células tireoidianas (normais ou do câncer diferenciado) absorvem esse iodo
  • A radiação age diretamente nessas células, destruindo-as de forma localizada

A grande vantagem é que o iodo radioativo tem pouca ação em outros tecidos, tornando o tratamento direcionado.

Como a paciente se prepara para a radioiodoterapia?

A preparação pode variar de acordo com o protocolo do serviço, mas geralmente envolve:

Estímulo do TSH

Pode ser feito com suspensão temporária do hormônio tireoidiano (levotiroxina), o que causa hipotireoidismo transitório, ou com o uso de TSH recombinante (injeções), permitindo que a paciente mantenha o hormônio em dose habitual, em alguns casos.

Dieta pobre em iodo

Por um período curto antes do tratamento, para aumentar a captação do iodo radioativo pela célula tireoidiana.
Envolve evitar alguns alimentos ricos em iodo (como excesso de sal iodado, alguns frutos do mar, algas, etc.), conforme orientação específica da equipe.
O objetivo da preparação é potencializar o efeito da radioiodoterapia.

Como é o dia do tratamento?

Em geral:

  • A paciente se apresenta ao setor de medicina nuclear / radioiodoterapia
  • Após as orientações, recebe a dose de iodo radioativo por via oral (cápsula ou solução)
  • Pode haver necessidade de internação em quarto preparado para esse tipo de procedimento, com medidas de isolamento temporário, pois parte da radioatividade será eliminada pela urina, saliva e suor nas primeiras horas/dias

O período de internação costuma ser curto (em muitos serviços, 24 a 48 horas), variando conforme a dose e normas locais.

Existem efeitos colaterais?

A maioria das pacientes tolera bem a radioiodoterapia. Alguns efeitos que podem ocorrer:

  • Náusea leve nas primeiras horas
  • Sensação de boca seca
  • Alterações no paladar temporárias
  • Pequeno desconforto na região do pescoço, em alguns casos

Em doses mais altas ou em tratamentos repetidos, pode haver maior risco de alterações em glândulas salivares e outros efeitos, o que é avaliado individualmente pela equipe médica.

De modo geral, trata-se de um procedimento seguro, com décadas de uso e ampla experiência mundial.

Preciso ter medo de “contaminar” outras pessoas?

Logo após a radioiodoterapia, a paciente elimina radioatividade principalmente pela urina e secreções. Por isso, são recomendadas medidas de proteção temporárias, como:

  • Ficar em isolamento por um período orientado pelo serviço (primeiras horas ou dias)
  • Evitar contato muito próximo e prolongado com crianças pequenas e gestantes por alguns dias
  • Reforçar higiene do banheiro e das mãos

Essas orientações são detalhadas pela equipe responsável, com base na dose utilizada.

Seguindo as recomendações, não há risco relevante para a família.

A radioiodoterapia substitui a cirurgia?

Não. Na maioria dos casos de câncer diferenciado de tireoide, a cirurgia é o tratamento principal.

A radioiodoterapia, quando indicada, entra como complemento, para aumentar a segurança do tratamento e facilitar o seguimento. Em pacientes de baixo risco, muitas vezes não há necessidade desse passo adicional.

O que acontece depois da radioiodoterapia?

Após o tratamento, a paciente:

  • Retoma o uso da levotiroxina, conforme orientação
  • Faz exames de sangue (como tireoglobulina e TSH) e, eventualmente, exames de imagem
  • Mantém acompanhamento regular com o especialista em cabeça e pescoço e/ou endocrinologista

A radioiodoterapia é uma etapa do caminho. O seguimento a longo prazo é importante para garantir que tudo continue bem.

Conclusão

A radioiodoterapia é uma ferramenta segura e eficaz no tratamento do câncer de tireoide em casos selecionados, especialmente após a cirurgia.

Ela não é indicada para todas as pacientes, e a decisão deve ser sempre individualizada, levando em conta o tipo de tumor, o risco de recidiva e as recomendações do especialista.

Entender como ela funciona, por que é (ou não) indicada no seu caso e como é o dia a dia do procedimento ajuda a transformar o medo em confiança e sensação de segurança.

Se você recebeu indicação de radioiodoterapia, converse abertamente com seu médico, tire todas as dúvidas e lembre-se:
esse é mais um passo em direção à sua cura, mais uma arma nessa luta.

Autor

Dr. Marcelo Schalch

CRM 164050-SP

RQE Nº 105906

  • Médico formado pela Faculdade de Medicina do ABC (FMABC).
  • Especialista em Cirurgia de Cabeça e Pescoço pelo Instituto do Câncer Doutor Arnaldo